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Como escolher títulos de crédito privado em meio à alta da inadimplência

I9vando | Radar da MobilidadeComo escolher títulos de crédito privado em meio à alta da inadimplênciaDurante quatro anos de Selic em dois dígitos, a renda fixa ocupou um lugar privilegiado nas carteiras dos investidores

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Como escolher títulos de crédito privado em meio à alta da inadimplência

Durante quatro anos de Selic em dois dígitos, a renda fixa ocupou um lugar privilegiado nas carteiras dos investidores brasileiros. Parte desse dinheiro seguiu para o crédito privado, mercado formado por títulos que b...

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Durante quatro anos de Selic em dois dígitos, a renda fixa ocupou um lugar privilegiado nas carteiras dos investidores brasileiros. Parte desse dinheiro seguiu para o crédito privado, mercado formado por títulos que bancos e empresas emitem para captar recursos diretamente com investidores. É o caso dos CDBs, usados pelas instituições financeiras para custear suas atividades, das debêntures, lançadas por companhias para financiar projetos, investimentos ou reforçar o caixa, e dos certificados de recebíveis imobiliários e do agronegócio, os CRIs e CRAs, lastreados em pagamentos futuros desses setores. Em troca do capital recebido, os emissores se comprometem a devolver o valor em uma data determinada, acrescido da remuneração estabelecida. Com juros elevados e condições conhecidas desde o momento da aplicação, esses papéis se tornaram uma alternativa atraente para quem busca preservar o patrimônio e obter retornos consistentes. A segurança, contudo, não depende apenas da natureza do investimento. Ao comprar um título de crédito privado, o investidor está, na prática, emprestando dinheiro a um banco, uma empresa ou um projeto. A solidez da aplicação, portanto, está diretamente ligada à capacidade de pagamento de quem recebeu os recursos. Escolher bem o emissor é o primeiro passo de quem investe para transformar a remuneração prometida em retorno efetivo.

O avanço da inadimplência empresarial no país tornou ainda mais importante a análise da capacidade de pagamento dos emissores. Segundo a Serasa Experian, 9 milhões de empresas estão com contas atrasadas, entre elas nomes conhecidos do varejo, como Grupo Pão de Açúcar e Grupo Casas Bahia. Neste último, dos 17 bilhões de reais em dívidas, 5 bilhões correspondiam a operações de crédito privado, segundo a fintech Vitrify, que compila dados do mercado financeiro. Os números, contudo, não apontam para uma crise generalizada do mercado, que continua movimentando volumes expressivos. Eles mostram, sobretudo, que a busca por segurança passa por uma análise mais cuidadosa da saúde financeira das companhias.

Os diferentes títulos oferecem níveis distintos de proteção. Nos CDBs, emitidos por bancos, os papéis elegíveis contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, dentro dos limites estabelecidos. Debêntures, CRIs e CRAs não contam com essa garantia. Nesses casos, a confiança está na capacidade de o emissor honrar os compromissos assumidos e nas garantias previstas em cada operação. A ausência do FGC não torna esses títulos necessariamente frágeis. Apenas aumenta a importância de observar o endividamento, a geração de caixa, os vencimentos das dívidas e a qualidade da estrutura financeira do emissor.

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Parte das dificuldades enfrentadas atualmente pelas empresas remonta à forte expansão do crédito em 2020 e no início de 2021, quando a Selic estava em 2% ao ano. Com dinheiro barato, muitas companhias aumentaram suas captações sem prever que o custo do financiamento poderia subir tão rapidamente. De março de 2021 a agosto de 2022, a taxa básica saltou de 2% para 13,75% ao ano, encarecendo a contratação e a renovação de dívidas justamente quando o consumo e a geração de recursos perdiam força. O varejo ficou entre os setores mais pressionados, pois depende fortemente do consumo e costuma operar com margens estreitas. “Todo esse cenário complica a tentativa de renegociação da dívida, visto que a empresa precisa emitir novas dívidas a juros cada vez mais altos”, afirma Gustavo Pessoa, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas. “É uma espiral que leva ao desacordo com os credores e à recuperação judicial.”

Americanas: fraude contábil de 54 bilhões de reais abalou a confiança do mercadoRafaela Araújo/Folhapress/. Continua após a publicidade

A multiplicação das recuperações judiciais não provocou a retração das captações. Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, entidade que reúne instituições do setor financeiro, compara o momento atual ao choque de confiança provocado pela fraude contábil de 54 bilhões de reais da varejista Americanas, em 2023. Naquele ano, as emissões de debêntures caíram 65% em fevereiro, para 7 bilhões de reais. Agora, o movimento é diferente. Em março, mês em que a Raízen, uma das maiores produtoras de açúcar, etanol e bioenergia do mundo, anunciou a maior recuperação judicial da história do país, com 61 bilhões de reais em dívidas, as emissões cresceram 70%. “Os dados mostram que o mercado segue aquecido”, afirma Maranhão.

A diferença entre os dois episódios indica que o crédito privado amadureceu. Em vez de abandonar todo o segmento diante de casos problemáticos, os investidores passaram a distinguir com maior precisão as empresas sólidas daquelas mais expostas financeiramente. Companhias capazes de pagar juros, investir e distribuir dividendos sem comprometer os recursos disponíveis oferecem uma combinação mais favorável entre segurança e retorno. Entre os setores que reúnem emissores com boas condições estão petróleo, etanol de milho e locação de veículos, favorecidos pela geração de recursos e por estruturas financeiras mais organizadas. Empresas de energia elétrica e saneamento também costumam aparecer no radar por atuarem em áreas com receitas relativamente previsíveis. Concessionárias de serviços públicos como a empresa de saneamento Sabesp, que contam com receitas recorrentes e tarifas reajustadas periodicamente pela inflação, tendem a emitir títulos de dívida considerados mais confiáveis pelo mercado. Essa característica, ressalve-se, não dispensa a análise do endividamento, da geração de caixa e das condições específicas de cada papel.

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O nível de endividamento está entre os filtros mais importantes para a escolha dos emissores. Entre as companhias não financeiras, um dos principais indicadores compara a dívida líquida com o Ebitda, medida que representa a geração de recursos obtida com a atividade operacional antes do pagamento de juros e impostos e do registro de depreciações e amortizações. Quando a dívida supera em 3,5 vezes o Ebitda anual, a empresa já entra em uma faixa de maior exposição financeira. Em termos simples, isso significa que o volume devido é elevado diante dos recursos gerados pela própria operação. O número, isoladamente, não determina a qualidade do título, mas oferece um ponto de partida para uma análise que deve considerar também o setor de atuação, os vencimentos, as garantias e a capacidade de refinanciamento.

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Os bancos formam outra frente de oportunidades, mas os critérios de seleção continuam necessários. A atenção se volta especialmente para CDBs que oferecem remuneração muito acima da praticada pelas maiores instituições. Um título que paga 110% do CDI pode parecer mais atraente que outro remunerado a 100%, mas a diferença deve ser comparada ao risco assumido. Vale lembrar que o famigerado Banco Master chegou a oferecer 140% do CDI em seus CDBs, atraindo legiões de aplicadores — e deu no que deu. A taxa mais elevada — mas sem exagero — funciona como uma compensação pelo risco adicional, e não como uma vantagem sem contrapartida. “O risco, mesmo com a proteção do FGC, não vale a pena”, afirma Marco Harbich, fundador da consultoria de investimentos Gordon Capital.

Sabesp: receitas recorrentes tornam mais confiáveis os títulos das concessionáriasGabriel Cabral/Folhapress/. Continua após a publicidade

A segurança também depende da possibilidade de recuperar o dinheiro antes do vencimento. É nesse ponto que entra a liquidez. Se precisar sair antecipadamente da aplicação, o investidor deverá encontrar alguém disposto a comprar o título. Essa negociação acontece no mercado secundário, no qual circulam papéis já emitidos por bancos e empresas. O comprador assume o direito de receber o valor e os juros no vencimento, enquanto o vendedor consegue antecipar a saída da aplicação. A possibilidade de vender o papel antes do vencimento tornou-se maior entre as debêntures, uma vez que as negociações no mercado secundário ganharam força nos últimos anos. No mercado primário, o investidor compra um título no momento da emissão, e o dinheiro segue para a empresa que busca financiamento. No secundário, compra de outro investidor um papel que já está em circulação, sem que os recursos sejam destinados ao emissor.

Dados da Anbima mostram que, desde 2023, o volume negociado chegou, em alguns períodos, a superar o de novas emissões. Em 2025, as transações no mercado secundário alcançaram 601 bilhões de reais, diante de 493 bilhões em emissões primárias. No primeiro semestre de 2026, foram negociados 276 bilhões de reais, 62% acima dos 170 bilhões emitidos no mesmo período. Números como esses confirmam que a indústria de títulos corporativos está mais madura. Em um mercado cada vez maior e diversificado, segurança não significa ausência de incerteza, mas conhecer os riscos, selecionar bons emissores e construir uma carteira preparada para atravessar diferentes cenários.

Publicado em VEJA, setembro de 2026, edição VEJA Negócios nº 30

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Fonte base da analise: VEJA. Atualizacao da fonte em 25/09/2026 06:00.

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