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Administração diz que transporte continuará com atuais operadoras em contratos transitórios até conclusão da concorrência; empresa havia oferecido veículos fabricados entre 2024 e 2026, além de estrutura operacional
ADAMO BAZANI
A Prefeitura de Campinas (SP) decidiu não avançar, neste momento, com a proposta da Sancetur – Santa Cecília Turismo Ltda. para colocar até 320 ônibus no transporte coletivo da cidade em uma operação emergencial. A empresa, que havia vencido o Lote Sul da licitação posteriormente anulada pelo TCE (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo), ofereceu veículos fabricados entre 2024 e 2026, além da estrutura necessária para operar.
A administração municipal informou que o sistema continuará sendo atendido pelas empresas atuais, por meio dos contratos vigentes mantidos de forma transitória enquanto é conduzido o processo para uma nova concessão. A manifestação encerra, pelo menos por enquanto, a possibilidade levantada após a decisão do TCE de a Sancetur entrar antecipadamente no sistema por meio de uma solução emergencial.
O Diário do Transporte mostrou em 21 de agosto de 2026 que a Sancetur havia colocado os 320 ônibus à disposição da prefeitura e que o prefeito Dário Saadi havia confirmado o recebimento da oferta, informando na ocasião que a proposta seria analisada.
A empresa dizia possuir veículos disponíveis para mobilização imediata, sem necessidade de aguardar novas encomendas às fabricantes de ônibus.
Além da frota, a Sancetur afirmou que poderia disponibilizar estrutura operacional, trabalhadores, manutenção, tecnologia de bilhetagem e monitoramento.
Agora, a posição da administração municipal indica que esta alternativa não será adotada.
Em nota, a Secretaria Municipal de Transportes informou que o sistema continua funcionando com os contratos existentes, mantidos transitoriamente até que seja concluída a licitação.
Segundo a pasta, “a operação é permanentemente fiscalizada e, sempre que são identificadas inadequações na prestação do serviço, são cumpridas as medidas previstas nos contratos e na legislação”.
PREFEITURA HAVIA DITO QUE ANALISARIA OFERTA
A proposta da Sancetur foi formalizada em ofício encaminhado ao prefeito Dário Saadi em 19 de agosto de 2026, justamente no período em que o TCE determinou a anulação da licitação do transporte coletivo.
Na ocasião, a prefeitura confirmou o recebimento do documento e informou que o material havia sido encaminhado para análise técnica.
A Sancetur sustentou que poderia colocar imediatamente à disposição de Campinas até 320 ônibus fabricados entre 2024 e 2026.
A empresa argumentou ainda que já dispunha dos veículos, não sendo necessário esperar pela fabricação de novos ônibus, e afirmou possuir estrutura e capacidade operacional para uma mobilização rápida.
A oferta foi apresentada para uma eventual operação emergencial e, segundo a própria Sancetur, não tinha como objetivo interferir no processo licitatório nem antecipar decisões administrativas ou judiciais sobre a concessão definitiva.
A possibilidade de contratação também nunca foi automática.
Como destacou o Diário do Transporte ao revelar os detalhes da proposta, qualquer entrada emergencial de uma nova operadora dependeria de decisão administrativa da prefeitura, análise jurídica e demonstração das condições legais que justificassem uma contratação dessa natureza.
PREFEITURA OPTA PELA CONTINUIDADE DOS CONTRATOS ATUAIS
Com a manifestação mais recente da administração municipal, a solução escolhida para atravessar o período até a conclusão da nova concorrência continua sendo a manutenção das empresas que já atendem Campinas.
Os contratos foram prorrogados justamente para permitir a continuidade da operação durante a transição para a futura concessão.
A Câmara Municipal aprovou em abril de 2026 a possibilidade de extensão dos atuais contratos por dois anos.
A decisão da prefeitura de não avançar com a proposta da Sancetur ocorre apesar dos problemas de operação e envelhecimento da frota que vêm sendo reconhecidos pela própria administração municipal.
Dados oficiais da Emdec já mostraram quantidade elevada de autuações por descumprimento de viagens programadas, falta de ônibus e atrasos.
Em fevereiro de 2026, por exemplo, a administração determinou às operadoras que colocassem 100% da frota operacional programada nas ruas depois de problemas de disponibilidade, principalmente em linhas da VB3.
Em outro balanço, a Emdec informou que somente em 2025 foram aplicadas 39,3 mil autuações aos operadores, sendo 32,8 mil relacionadas ao descumprimento de viagens programadas.
Já em junho, o órgão informou que mais de 25 mil autuações haviam sido registradas em 2026 por problemas como descumprimento de partidas, ausência de veículos e atrasos. Aproximadamente 22 mil estavam relacionadas a viagens não realizadas em razão de quebra ou falta de ônibus.
SANCETUR USOU PROBLEMAS DA FROTA PARA JUSTIFICAR OFERTA
Foi justamente esse cenário que a Sancetur utilizou para justificar a proposta apresentada ao município.
A empresa citou em seu documento 24,1 mil ocorrências de quebras e faltas de ônibus no primeiro semestre de 2026, alta de 13% em comparação com igual período de 2025, além de mencionar multas aplicadas às atuais operadoras.
Como ressaltou anteriormente o Diário do Transporte, esses números específicos faziam parte da argumentação apresentada pela própria Sancetur e, portanto, deveriam ser atribuídos à empresa.
Há, entretanto, informações oficiais da administração municipal que confirmam problemas relacionados à idade da frota, quebras e indisponibilidade de veículos.
A própria Emdec informou que 267 ônibus novos ou seminovos foram incorporados ao sistema entre 2021 e 2025, dos quais 110 somente em 2025, mas relacionou parte dos problemas operacionais ao envelhecimento da frota.
SANCETUR TINHA VENCIDO LOTE SUL
A situação também chama atenção porque a Sancetur não apareceu agora pela primeira vez no processo de reorganização dos transportes de Campinas.
A empresa havia sido considerada vencedora do Lote Sul da nova concessão.
No leilão realizado em 5 de março de 2026 na B3, em São Paulo, a Sancetur apresentou tarifa de remuneração de R$ 9,54 por passageiro no Lote Sul, contra um valor máximo de R$ 11,21 estabelecido pelo edital.
O Consórcio Andorinha ficou logo atrás, com R$ 9,55.
A tarifa de remuneração não corresponde ao valor pago pelo passageiro na catraca. É o parâmetro econômico utilizado para remunerar a prestação do serviço.
A concorrência completa prevê dois grandes lotes e contratos estimados em aproximadamente R$ 11,8 bilhões ao longo de 15 anos.
Mas a vitória no leilão não chegou a resultar no início da operação da Sancetur.
TCE MANDOU ANULAR LICITAÇÃO
Em 19 de agosto, o TCE determinou a anulação da licitação e a necessidade de refazer etapas da concorrência.
Como mostrou o Diário do Transporte, a decisão não ocorreu especificamente por causa da vitória da Sancetur.
O foco do julgamento foram falhas técnicas e administrativas apontadas na condução do processo pela própria administração municipal, particularmente aspectos relacionados à modelagem econômica e às alterações realizadas durante a concorrência.
Também é necessário diferenciar essa decisão das denúncias de suposto conluio empresarial que haviam sido apresentadas anteriormente ao Tribunal de Contas.
O TCE chegou a analisar questionamentos sobre possíveis relações entre grupos participantes da concorrência, mas a decisão que levou à anulação não estabeleceu que a Sancetur tenha vencido o Lote Sul por fraude nem condenou individualmente a empresa por irregularidade na disputa.
Na prática, a determinação do tribunal retirou a validade do resultado que colocava a Sancetur no Lote Sul e o Consórcio Grande Campinas no Lote Norte e obrigou o município a reorganizar o processo para escolha das empresas que deverão operar o sistema pelos próximos 15 anos.
OFERTA SURGIU NO MESMO DIA DA DECISÃO DO TCE
Foi neste contexto que a Sancetur apresentou a proposta dos 320 ônibus.
Horas depois da decisão do TCE, a companhia colocou a frota à disposição do município para uma eventual operação emergencial, desde que fossem observados os procedimentos legais.
A movimentação abriu uma segunda discussão.
Além de definir como seria refeita a concorrência para a concessão definitiva, a prefeitura passou a ter diante de si uma proposta de uma empresa externa ao atual sistema para uma possível intervenção de curto prazo na operação.
O Diário do Transporte mostrou na ocasião que a oferta ampliava a pressão sobre a administração municipal justamente porque Campinas precisava conciliar dois problemas: concluir uma nova licitação e, simultaneamente, manter a regularidade dos ônibus enquanto a solução definitiva não chegasse.
Com a posição agora apresentada pela prefeitura, a segunda hipótese não avançará neste momento.
Os atuais operadores continuam responsáveis pelo transporte coletivo e sujeitos à fiscalização e às penalidades previstas contratualmente, enquanto Campinas tenta concluir novamente o processo para definir quem comandará o sistema pelos próximos anos.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
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Fonte base da analise: diariodotransporte.com.br. Atualizacao da fonte em 01/09/2026 17:24.